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A pediatria nos últimos 40 anos
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Dr. Sylvio Renan

Foto por: Mary Efflandt Site: maryefflandtphotography.com

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Após 40 anos de atuação na pediatria, sinto-me à vontade para descrever a evolução desta especialidade, graças ao desenvolvimento da medicina e da sociedade como um todo. Com o advento das novas tecnologias da saúde e da informação, não apenas os recursos diagnósticos e de tratamentos trouxeram novas oportunidades na condução de doenças antes sem cura ou de difícil manejo, como acresceram facilidades de acesso a informações e métodos de interação para pais e cuidadores, com os profissionais e com comunidades afins.

Há quatro décadas, o médico pediatra atuava como um clínico geral de crianças, diagnosticando e tratando praticamente todos os agravos, como doenças oncológicas, reumáticas, neurológicas, entre outras.

Com o desenvolvimento das subespecialidades, focadas no tratamento mais específico de doenças infantis, o atendimento do pediatra geral evoluiu no sentido da puericultura propriamente dita, fortalecendo outros laços dentro da clínica preventiva e de tratamentos gerais, passando a exercer um papel mais importante nos cuidados com as crianças e na orientação de pais e cuidadores, visando a formação de adultos saudáveis, dignos  e com qualidade de vida.

Apenas para exemplificar, temos como base as questões de hábitos nutricionais e de atividades físicas que visam conter o avanço da obesidade e doenças cardiovasculares.

Retornando ao advento tecnológico no tratamento médico, em que pudemos promover a diminuição sensível da morbimortalidade dos pequenos, podemos citar como exemplo a oncologia infantil, em que no passado o diagnóstico era tardio e o tratamento era basicamente restrito a sedativos e analgésicos paliativos, sem medicamentos efetivos que pudessem trazer a cura para os pacientes.

Apesar do conhecimento ampliado, diagnósticos precoces e acesso a tratamentos efetivos para diversas doenças graves, a maior evolução ocorreu no setor de imunizações, com a descoberta de métodos de preparação de antígenos protetores contra muitas doenças graves,  e comuns naquele tempo: poliomielite, tétano, tifo, varicela, sarampo, rubéola, meningites pneumocócicas, tuberculosas, meningocócicas, entre outras.

No que tange a informação dos pais, passamos da demorada consulta a livros e revistas para a quase imediata internet com seu universo praticamente inesgotável, o que sem dúvida abriu horizontes importantes para todos, não apenas para aquisição de conhecimento, como para a troca de experiências. Podemos dizer que a internet empoderou pais e cuidadores de forma positiva, ao mesmo tempo abrindo um mundo de dúvidas em que aumenta a importância da figura do médico, que não pode ser descartada para o correto diagnóstico e tratamento da criança.

A tecnologia, através de seus aplicativos de comunicação, também diminuiu a distância entre médicos e pacientes, que, hoje, através de simples toques em uma tecla, conseguem enviar fotos e vídeos para sanar dúvidas rápidas, outrora somente possíveis presencialmente no consultório. É, sem dúvida, um facilitador para ambos, mas que também abre oportunidades de análise sobre o bom uso destes recursos para o bem estar de todos os envolvidos.

Neste admirável mundo novo que vislumbro nos últimos 40 anos da pediatria, em que alguns de meus pacientes de ontem agora são pais e seus filhos meus pacientes, e no qual tenho clara a mudança de relacionamento e prática que tinha com seus pais e agora com eles e seus filhos, nos cabe imaginar como será a pediatria daqui a 40 anos.

 

Dr. Sylvio Renan Monteiro de Barros – CRM SP-24699
Autor dos livros “Seu bebê em perguntas e respostas – Do nascimento aos 12 meses” e “Pediatria Hoje”Formado pela Faculdade de Medicina do ABC | Especializações e títulos pela Unifesp/EPM, Sociedade Brasileira de Pediatria e General Pediatric Service da University of California – Los Angeles (Ucla) | Atuou por quase 30 anos no Pronto Socorro Infantil Sabará e foi diretor técnico do Hospital São Leopoldo, cargo que deixou para se dedicar ao seu consultório e à literatura médica para leigos.


O tempo certo para a retirada das fraldas
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Dr. Sylvio Renan

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Um método para a retirada das fraldas dos bebês, difundido nos EUA, começa a ser debatido por aqui. Trata-se do “elimination comunication” (comunicação da eliminação, em inglês), e que consiste na observação dos sinais e sons que o bebê emite sempre que sente vontade de fazer suas necessidades.

Baseado nestes sinais, os pais conduzem o bebê (de meses) para um peniquinho para que ele faça as suas necessidades e assim se condicione a não mais fazer nas fraldas.

Embora nos EUA já até exista uma organização não governamental chamada Diaper Free Baby (Bebê livre de fralda, em inglês) que auxilia os pais na técnica, eu a questiono bastante e explico o motivo.

Além de ser pouco viável e prática nos dias de hoje para a execução dos pais, as crianças só começam a ter um controle neurológico de suas necessidades a partir dos 18 meses. Desta forma, esta antecipação da retirada da fralda por condicionamento tem pouca chance de dar resultado, além de poder, pela frustração dos pais frente a um provável insucesso, provocar uma obstipação de origem psicológica. Pela lógica, não são os pais que condicionam a criança, mas o bebê que condiciona os pais a levá-lo ao vaso sanitário sempre que quiser fazer cocô ou xixi.

Outro ponto importante está relacionado ao próprio afeto e cuidado com os pequenos. Tudo na fase de uma pessoa tem um momento e hora certa para acontecer, especialmente na infância. A prática dessa técnica faria com que a criança pulasse uma fase da vida, além de perder esse momento de afeto e contato próximo com os pais que é proporcionado no momento da troca da fralda.


Até que idade devo levar meu filho ao pediatra?
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Dr. Sylvio Renan

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Em meus mais de 30 anos de atuação na pediatria, seria difícil calcular o número exato de pacientes que já atendi. Posso dizer que, entre eles, tenho alguns cuja idade já ultrapassou a faixa etária recomendada para que uma pessoa recorra a um pediatra. Ainda chegam muitos adolescentes quase adultos ao meu consultório na busca da minha análise clínica.

A Pediatria é a medicina do ser em crescimento. Mas, afinal, até que idade os pais devem levar seus filhos ao pediatra?

Desde 1969, o Conselho Americano da Prática Pediátrica (Council of Pediatric Practice) aconselha que o acompanhamento com este profissional deve prosseguir até que o paciente complete 21 anos de idade. No entanto, muitas entidades, públicas ou privadas, estabelecem limites arbitrários, como 12, 14 ou 16 anos para o atendimento por pediatras. Lembrando ainda que dentro da área da pediatria existe uma subespecialidade, a hebiatria, que atende adolescentes, faixa etária pré-determinada entre os 13 e 21 anos.

Sendo assim, recomendo que as consultas para crianças até um ano de idade sejam realizadas mensalmente, já a partir do 2º ano de vida, a visita pode ser feita a cada três meses e, dos 2 ao 6 anos, a mesma deve acontecer semestralmente. Quando o paciente já estiver crescido, deve visitar o pediatra anualmente, e, a partir de então continuidade seus cuidados com a saúde com um clínico geral, anualmente, que o encaminhará para um especialista quando necessário. Assim como cada criança tem suas particularidades, nós adultos também, e há casos que fogem às regras, devido a alguns acometimentos que possam requerer mais visitas com um profissional.

Um dos motivos que faz com que, mesmo após os 21 anos, muitos ainda recorram ao pediatra – mesmo que seja apenas para pedir conselhos -, é justamente pela dificuldade da quebra do “cordão umbilical” na relação entre o médico e o paciente, devido a longa interação durante seu crescimento e maturidade. Muitos pediatras acabam se tornando parte da família da criança, sendo difícil essa “despedida”.

Para estes meus crescidinhos pacientes, sempre procuro me atualizar no sentido de me adequar às suas exigências, na maioria das vezes, muito mais na área afetiva e comportamental do que propriamente no tratamento de doenças físicas. Assim, é preciso aprender a ouvi-los e atender seus anseios. Particularmente, colaboro com conselhos e observações, deixando claro não estar assumindo a atuação médica em si, pois me considero sem competência e tempo para exercer tal atividade médica. Por isto, aconselho uma consulta com um clínico geral.

Por último, lembro e friso que nós pediatras, atualmente, estamos nos adequando para atender pequenos pacientes que provavelmente vão viver até 120 anos. Com este novo cenário, temos que nos esforçar para que eles vivam com boa qualidade de vida, através do acompanhamento pediátrico desde seu nascimento e com consultas preventivas e check-ups, orientando-os para que evitem condutas que possam ser prejudiciais para a sua saúde a curto e longo prazo.


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